sexta-feira, 4 de setembro de 2009

 CARTA

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.

Ficaram velhas todas as noticias.

Eu mesmo envelheci: olha, em relevo,

estes sinais em mim, não das carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:

são golpes, são espinhos, são lembranças

da vida a teu menino, que ao sol-posto

perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto

à hora de dormir, quando dizias

"Deus te abençoe", e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto

a noite acumulada de meus dias,

e sinto que estou vivo, e que não sonho.

(Carlos Drummond de Andrade à mãe dele)

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